ANÁLISE

Argentina: Mudanças no Ministério da Economia

Durante a tarde de sábado, 2 de julho, Martín Guzmán apresentou surpreendentemente sua renúncia ao cargo de ministro da Economia da Argentina por meio de um comunicado de sete páginas enviado ao presidente Alberto Fernández e que posteriormente compartilhou em suas redes sociais. Um dia depois, o presidente nomeou Silvina Batakis como nova Ministra da Economia.

QUEM É SILVINA BATAKIS?

Batakis nasceu na Província de Tierra del Fuego na Cidade de Río Grande e é bacharel em Economia pela Universidade Nacional de La Plata. Conta com um máster em Finanças Públicas Provinciais pela mesma instituição e em Economia pela Universidade de York (Inglaterra).

Além disso, foi pesquisadora e docente do Instituto del Conurbano, na Universidade Nacional General Sarmiento.

Em relação ao seu desenvolvimento profissional, Batakis conta com uma longa trajetória no setor público. Ela começou sua carreira como assistente técnico no Ministério do Planejamento e Obras Públicas da província de Buenos Aires e no “Plan Agua Potable y Saneamiento para el Conurbano Bonaerense” da Fundação Facultad de Ingeniera, da Universidade de La Plata.

Também permaneceu um breve período na Secretaria de Mineração e Indústria do Ministério da Economia da Argentina.

Batakis construiu sua carreira política na Província de Buenos Aires como Coordenadora Provincial de Estudos Econômicos no Ministério da Economia, onde chegou a ocupar o cargo de Diretora Provincial.

Depois de se desempenhar como assessora na Subsecretaria de Relações com as Províncias do Ministério da Economia da Argentina, em 2003 fundou e presidiu o Centro de Estudos Federais (CEFED), oferecendo assistência a governos provinciais e municipais em temas sobre administração tributária, desenvolvimento produtivo e gestão ambiental. Em 2008, assumiu o cargo de diretora provincial de Economia Ambiental e Energias Alternativas do Órgão Provincial para o Desenvolvimento Sustentável (OPDS) da província de Buenos Aires.

Logo, depois de um breve período como diretora provincial de zonas francas, assumiu como chefa de Gabinete de assessores do Ministério da Produção da província de Buenos Aires.

Entre 2009 e 2011, trabalhou como Subsecretária de Fazenda do Ministério da Economia da província de Buenos Aires. Naqueles anos, também exerceu a função de representante no Conselho Federal de Responsabilidade Fiscal ante la (NOTA TRADUCTOR: FALTA ALGUNA PALABRA AQUÍ). Já em 2011 assumiu o cargo de Ministra da Economia da província de Buenos Aires, onde esteve até 2015, com a chegada de Maria Eugenia Vidal ao governo.

Entre 2016 e 2019, foi assessora na unidade da prefeitura da cidade de Florencio Varela.

Depois da posse de Alberto Fernández, Batakis entrou no Ministério do Interior como secretária de Províncias, uma pasta liderada por Eduardo “Wado” de Pedro.

SUA ARTICULAÇÃO COMO FIGURA POLÍTICA

Silvina Batakis é próxima ao Ministro de Desenvolvimento Produtivo, Daniel Scioli, com quem mantém uma estreita relação, já que o acompanhou durante sua gestão na província de Buenos Aires como Ministra da Economia, transformando-se em uma ferrenha defensora de sua gestão.

A nova ministra também mantém uma boa relação com “Wado” De Pedro, que a introduziu em sua equipe de gestão no início do governo de Alberto. De Pedro é um dos principais referentes da organização La Cámpora que conta com a extrema confiança da vice-presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

Por esta razão, em meio a um dos momentos mais conflituosos, em termos políticos, que a gestão de Alberto Fernandez atravessou, Batakis foi escolhida como sucessora de Martín Guzmán com o aval do Presidente e da Vice-Presidente.

CONCLUSÕES

A saída do ministro, Martín Guzmán, reafirma a fragilidade de Alberto Fernández, que havia focado no bom desempenho da economia a pouca margem política que restava ao governo em termos de confiança.

Durante o dia de ontem, circularam boatos entre fontes próximas da presidência sobre os possíveis sucessores de Guzmán. Foram informados nomes de perfis técnicos tais como Cecilia Todesca e Martín Redrado, e de personalidades de alto perfil político como Sergio Massa, entre outros. Este cenário foi outra clara manifestação da desconfiança em relação ao governo, já que nenhum destes nomes com expertise em gestão econômica aceitaram a oferta.

Em seu lugar, o presidente designou Silvina Batakis, uma funcionária pública de baixo perfil político, mas com uma extensa carreira na função pública e alta capacidade técnica. Apesar de ter aprovado sua nomeação, o presidente Alberto Fernández perdeu o “controle” de todas as pastas de maior peso político, ficando com apenas quatro ministros aliados: Carla Vizzotti (Saúde), Claudio Moroni (Trabalho), Elizabeth Gómez Alcorta (Mulheres) e Santiago Cafiero (Relações Exteriores).

Além disso, o governo desperdiçou outra oportunidade de gerar acordos mínimos dentro da coalizão de governo, encurtando os espaços de diálogo entre as diferentes forças políticas que fazem parte da Frente de Todos.

Resulta evidente que a crise em que o governo mergulhou é de caráter político e não econômico, de forma que qualquer mudança em termos de funcionários públicos resultará insuficiente. Sem acordos políticos mínimos, nem mudanças estruturais na formação do governo, a substituição de Guzmán é apenas mais um passo na “política do vamos vendo”.

No último fim de semana ficaram expostas duas grandes posições dentro da Frente de Todos. De um lado, a de Cristina Fernández de Kirchner e de Sergio Massa que exigiam uma mudança geral do gabinete, interpretados por Alberto Fernández como uma intervenção na sua gestão, e do outro a posição do presidente –que queria apenas substituir Guzmán- nada mais do que a mudança de um ministro.

Como corolário, o Kirchnerismo ganha poder, ocupando espaços no gabinete, forçando a saída daqueles ministros que, como observou a vice-presidente, “não funcionam”. Neste sentido, poderiam ocorrer novas modificações, impulsionadas pela ala Kirchnerista: a saída de Miguel Pesce, titular do Banco Central, e de Mercedes Marcó del Pont, titular da Administración Federal de Ingresos Públicos (AFIP), a Receita Federal da Argentina.

Nos próximos meses, a nova ministra, Silvina Batakis, deverá enfrentar graves problemas para os quais, até agora, não foram alcançadas soluções: O controle importador e seu impacto no aparato produtivo; a escalada inflacionária; a crise dos combustíveis e a greve do campo; e o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O relatório completo aqui.